Escrivã de polícia, atriz e diretora, Lívia
Martins Fernandez ressalta a importância de aproximar as instituições de
segurança pública de crianças e adolescentes vulneráveis a partir de
ferramentas como a arte
Em um Brasil com mais de 281 mil pessoas
em situação de rua, de acordo com pesquisa do Ipea
publicada neste ano, uma escrivã de polícia e atriz decidiu tirar o uniforme
para se conectar com as crianças e adolescentes que enfrentam este cenário de
vulnerabilidade. Lívia Martins Fernandez fez isso por meio da construção de narrativas teatrais ao
lado desses jovens e vivenciou situações angustiantes, mas também obteve
esperanças com as pessoas que lutam por uma vida mais digna para todos.
“Durante o meu convívio diário com esses jovens, percebi
que eles apanhavam de todo mundo: da família, dos colegas na escola, da
polícia, do comércio do tráfico e também de outras pessoas da rua, adultos,
principalmente. É uma guerra civil”, afirma em entrevista. Mas a autora do
livro Refúgios
Sob Guerras: Relatos Sobre Teatrar com Juventudes, além de traçar críticas à realidade, explicita como tem se
tornado possível o diálogo entre pessoas em situação de rua e policiais.
No conteúdo abaixo, ela trata sobre o projeto de teatro com
crianças e adolescentes que perdurou por anos e a importância da arte para a
humanização das pessoas. Leia:
1 – Como o projeto com os jovens em
situação de rua mudaram suas perspectivas sobre a vida?
Lívia Martins Fernandez: Acho que me
tornaram uma pessoa melhor e “pior” também. Eu estou rindo agora, pois, quando
digo “pior”, estou me referindo a uma certa “rebeldia interna”. Acho que fiquei
um pouco mais “sem trava” para falar o que penso sobre certas coisas em nossa
sociedade. Estar em uma situação de rua é estar a contrário sensu de muitas regras sociais. Comecei a me ver indagando sobre o
sentido de termos uma coisa ou outra, a exemplo de uma roupa de grife.
Você sabia que alguns meninos e meninas que tiravam um
dinheiro bom no tráfico de drogas, compravam roupa de marca e no outro dia
jogavam fora? É tipo, “isso é descartável pra mim, é irrelevante diante vida
por baixo de nossas roupas e máscaras sociais”.
2 - Você acha que corre
o risco de romantizar a vida destas pessoas?
L.M.F: Pois é, não
quero fazer isso: não quero romantizar. O que quero dizer é que muitas vezes a
presença de uma pessoa em situação de rua incomoda porque ela traz em sua
estética aquilo que tentamos esconder “para nos dar bem por aí”; somos animais.
Nos adestramos para o bom convívio em sociedade. A gente toma banho, arruma o
cabelo, passa perfume...
3 - Mas se não fossem estas regras,
viveríamos sob a égide de uma barbárie?
L.M.F: E já não
vivemos em certas situações? Eu sempre digo que a “polícia” é uma construção na
cabeça das pessoas. Quantas vezes, na rua ou no balcão, uma pessoa “cidadã” me
pede para dar “um esculacho” em alguém para “ver se toma jeito”? Ou então, sai
reclamando “que as leis teriam que ser mais duras”? Isso é uma construção
social na minha opinião. Posso assegurar que existem mulheres e homens
policiais que acreditam e praticam o diálogo e a mediação de conflitos.
Pergunto: isso dá pauta? Não dá. Consumimos a violência.
Ressalto, é a minha opinião. Eu sinceramente acredito que assistentes sociais,
psicólog@s, professores, médic@s e policiais que prestam um serviço público às
comunidades são educadores sociais. A gente previne e estanca a ferida o tempo
todo. Somos trabalhadores e precisamos nos apresentar e sermos reconhecidos
como tais, só assim a chave vira.
4 - Você fala sobre uma
polícia que media conflitos, mas, em seu livro, há relatos de jovens
violentados por policiais. Como perceber esses dois lados?
L.M.F.: Sim, e
infelizmente isso não é nenhuma novidade. Durante o meu convívio diário com
esses jovens, percebi que eles apanhavam de todo mundo: da família, na escola
com os colegas, da polícia, do comércio do tráfico e também de outras pessoas
da rua, adultos, principalmente. É uma guerra civil.
Felizmente podemos respirar um pouco mais com a insurgência
de movimentos sociais, como o Movimento de Policiais Antifascistas, que surge
justamente porque nestas instituições militarizadas existem trabalhadores que
se comprometem com a dignidade das pessoas. Quando todas as portas estão fechadas,
a porta da delegacia está aberta. De forma extraordinariamente contraditória,
pode acontecer, sim, de uma pessoa em situação de rua encontrar apoio de um
policial. No meu caso, resolvi atravessar o balcão para ver quem eram aquelas
pessoas sob outra perspectiva.
A arte faz isso: ela move e amplia sua perspectiva. A arte
humaniza. Lembro da sensação de estar trocando de figurino na coxia no
espetáculo “Os Meninos da Guerra” e me pegar sorrindo sozinha, enquanto
pensava: “‘meninos de rua’ e uma ‘puliça’ trocando de figurino com uns artistas
da cidade: que loucura!”. Mas não é loucura. A interdisciplinaridade nos
humaniza porque somos transdisciplinares.
5 - Por que o nome do
livro é “Refúgios Sob Guerras”?
L.M.F.: A arte é meu
refúgio. Sem ela, eu não estaria aqui conversando. Ao longo das minhas
oficinas, com juventudes de rua, de abrigo, de escolas e centros culturais,
percebi que o fazer teatral era o refúgio para muita gente: menino, menina,
mulher, homens, travestis, trans. É igual a Capoeira de Angola, para todo mundo
jogar.
No livro, eu trago um glossário com palavras que entendo
serem relevantes nessa minha experiência. “Refúgio” é uma delas… eu fiz uma
oficina de teatro com crianças no Recanto das Emas, e, anos depois, uma criança
me enviou um áudio dizendo que o “teatro curou a depressão dela”. A criança se
viu sob uma outra perspectiva, um outro papel social. Viva Boal! Pra sempre
Augusto Boal!
Sobre a autora: Lívia Martins
Fernandez é formada em Artes, mestra em Cultura e Saberes pelo programa de
pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB), diretora,
atriz e fundadora do Coletivo Cinema Caliandra. Em paralelo à carreira como
artista, é bacharel em Direito e trabalha como escrivã da Polícia Civil do
Distrito Federal desde 2009. Estreia na literatura com o livro “Refúgios Sob
Guerras: Relatos sobre Teatrar com Juventudes”.
Redes sociais: Instagram
Contato da autora: refugiossobguerras@gmail.com
Para saber mais sobre o livro “Refúgios
sob Guerras: Relatos sobre Teatrar com Juventudes”, clique aqui!
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