Da tradição tropeira à sustentabilidade: moradores da Lapa redescobrem formas de aproveitar melhor os alimentos

Projeto Gastronomia Também é Arte promove reflexão sobre desperdício, cultura alimentar e valorização dos ingredientes locais entre moradores de diferentes comunidades do município

Em uma cidade conhecida por preservar tradições históricas e gastronômicas que atravessam gerações, moradores da Lapa estão redescobrindo práticas que fizeram parte da rotina de muitas famílias e que hoje ganham novos significados diante dos debates sobre sustentabilidade e consumo consciente.

A reflexão surgiu ao longo de maio e junho durante as oficinas do projeto Gastronomia Também é Arte, iniciativa realizada pelo Ministério da Cultura e pela NTICS Projetos, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Compagas. Ao longo das atividades, moradores de diferentes regiões do município participaram de encontros voltados ao aproveitamento integral dos alimentos, à redução do desperdício e à valorização da cultura alimentar local.

Mais do que ensinar receitas, as oficinas abriram espaço para discutir como hábitos simples do cotidiano podem contribuir para uma relação mais consciente com os alimentos. O tema reuniu participantes com diferentes experiências, desde empreendedoras da área gastronômica até moradoras de comunidades rurais, como o Feixo, comunidade remanescente de quilombo localizada no município.

Foi o caso de Camila Pedroso, merendeira escolar e moradora da comunidade. Para ela, um dos principais aprendizados foi perceber que ingredientes normalmente descartados podem ganhar novos usos na cozinha. “Passei a olhar os alimentos com outras possibilidades, utilizando principalmente aquilo que costumamos jogar fora. O bolo de banana com casca foi uma das receitas que mais me surpreendeu, porque mostra que é possível aproveitar mais e desperdiçar menos”, conta.

Camila Pedroso (esq.) atua como merendeira na escola Martim Afonso, no Feixo. Já Isadora Barsotti, que ministrou as oficinas tem um restaurante - Divulgação

A culinarista Isadora Barsotti, responsável por ministrar as oficinas, acredita que o interesse despertado pelo tema está diretamente relacionado a uma busca crescente por hábitos mais conscientes, mas também a um reencontro com conhecimentos que sempre fizeram parte da cultura alimentar de muitas famílias.

“Muitas pessoas chegaram interessadas em aprender formas de aproveitar melhor os alimentos e economizar no dia a dia. Quando falamos de alimentação sustentável, estamos falando também de planejamento, valorização dos ingredientes e respeito ao alimento. São conhecimentos que ajudam as famílias e podem fazer diferença na rotina das pessoas”, explica.

Moradora da Lapa desde a infância, Isadora observa que a discussão dialoga naturalmente com a identidade do município. Conhecida pela forte herança tropeira e por pratos tradicionais que se tornaram símbolos da cidade, a Lapa construiu parte de sua cultura gastronômica a partir do aproveitamento inteligente dos ingredientes disponíveis em cada época.

Da cozinha doméstica ao empreendedorismo

A conexão entre tradição e atualidade também chamou a atenção da empreendedora Rosilda Martins, proprietária de um restaurante na cidade há 14 anos. Participante das oficinas, ela destaca que o aproveitamento integral dos alimentos pode gerar benefícios tanto para as famílias quanto para pequenos negócios. “São técnicas simples, mas que ajudam a valorizar melhor os ingredientes. Isso faz diferença para quem cozinha em casa e também para quem trabalha com alimentação”, afirma.

Para Rosilda, a gastronomia também desempenha um papel importante na economia local. Sua trajetória começou em uma pequena cozinha e, ao longo dos anos, transformou-se em uma atividade capaz de gerar trabalho, renda e desenvolvimento para a família e para outros funcionários. “Muita gente pensa que precisa começar grande para empreender. Eu comecei pequena e fui crescendo aos poucos. A culinária pode abrir oportunidades para quem gosta do que faz e está disposto a aprender”, afirma.

Para a Compagas, apoiar iniciativas como essa significa fortalecer conexões entre cultura, educação e desenvolvimento local. “A cozinha já faz parte do cotidiano das pessoas. Quando compartilhamos conhecimento, novas técnicas e formas mais conscientes de utilização dos alimentos, estamos contribuindo para fortalecer a autonomia das famílias, valorizar a cultura local e gerar impacto positivo na comunidade”, afirma Ana Paula Marion Vendrametto Feitoza, gerente institucional da Compagas.

Além das oficinas culinárias, o Gastronomia Também é Arte trouxe à cidade workshops de fotografia para estudantes da rede pública, palestra formativa para professores e uma exposição temática sobre gastronomia. Ao todo, a iniciativa impactou mais de 1.200 pessoas no município.

Em uma cidade onde tradição e memória continuam presentes à mesa, as atividades mostraram que muitos dos caminhos apontados hoje para uma alimentação mais sustentável passam por conhecimentos que já faziam parte da cultura local. A diferença é que agora eles retornam acompanhados de novas reflexões sobre consumo, desperdício e qualidade de vida.

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